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A Poesia do Yoga, um fluxo sagrado de reconhecimento

por Tales Nunes

O conhecimento do Yoga, que se manifestou através do tempo como poesia sagrada intuída pelos primeiros Rishis, é comparado ao fluir de um Rio. Sarasvati, a deusa do conhecimento, é uma alusão ao fluir das águas desse conhecimento sagrado.

A maior benção que um rio pode lhe oferecer é o fluxo de suas águas, o banhar-se nele. É uma ilusão pensar que possuímos um rio. É uma grande ilusão pensar que possuímos qualquer parte da Natureza. Nós apenas fazemos uso momentâneo de suas riquezas. O rio que nos banha tem a sua fonte em toda a ancestralidade da Terra. A história de suas águas, é a história dos ciclos sagrados de todas as águas que compõem o planeta, seja na forma de chuva, de oceano, ou daquele rio. Nós apenas nos banhamos nessas águas sagradas, e se estivermos acordados de fato, temos a capacidade de agradecer profundamente pelo mergulho que ela nos oferece.

Assim também é o conhecimento do Yoga, nós não o possuímos, nos banhamos nele e em sua superfície nos vemos refletidos, em suas profundidades nos reconhecemos. É uma ilusão achar que possuímos o conhecimento do Yoga tanto quanto é uma fantasia achar que possuímos um Rio, mesmo que seja uma parte dele. Nós somos tocados por ele e esse toque nos revela realidades em nós mesmos. Essa é a grande beleza poética do Yoga.

A fonte desse rio de poesia é inesgotável, reconhecemos que os Rishis estão presentes em nossos corações quando entramos em contato com o fluxo sagrado da poesia do Yoga. Esses seres que pertencem às florestas, às montanhas, aos rios e mares, que se dedicaram a escutar os movimentos da Natureza e a revelá-los em nós mesmos. Nós somos um pouco desses seres, nós somos um pouco dessa escuta. Na maior parte de nós ela está adormecida, o Yoga a acorda.

A própria poesia do Yoga, suas palavras de louvor e de despertar, são consideradas como o fluxo de um Rio em direção a uma deidade. Essas palavras, se bem escutadas e entendidas, nos conduzem a realidades da Natureza em nós, a inteligências que regem o cosmos e que estão presentes no corpo. Conduzem a nossa mente à compreensão silenciosa de que nós somos um com o Todo. Que a Terra é nossa mãe, que o céu é nosso pai, que o Sol é consciência efulgente que ilumina nossos pensamentos. Os próprios pensamentos são um sopro da força criativa da Vida num fluxo constante de sentidos que colorem o nosso espaço interno. Ou seja, a Poesia do Yoga é um fluxo em direção ao seu coração.  E quando ela é escutada, vemos que o destino e a origem são o mesmo lugar.

O sentido último da poesia do Yoga, através de seu fluxo, como um rio, é conduzir o fluir dos pensamentos da mente à sua fonte original. Todas as águas têm origem e destino no mar da consciência, sejam as águas de um rio, da chuva ou de um lago. E quando o fluir de um rio chega ao Mar, ele encontra e reconhece a sua fonte, assim como a mente reconhece a sua origem na consciência que tudo permeia e descobre um coração oceânico. Nós somos esse rio que anseia mar, porque nós mesmos somos imensidão. E se nos deixarmos levar pelo fluxo do conhecimento do Yoga, flutuando e nos banhando em seus sentidos profundos, o destino é reconhecer-se Oceano, reconhecer-se inteiro, não separado, livre, pleno.

É o Oceano inteiro, em seus balanços, profundidades e levezas, que aguarda reconhecimento em nosso coração. Mas certamente a jornada não será livre de medo, livre de dúvida, de incertezas e de tempestades, como todo navegar.

Tales Nunes, Floripa, 23 de fevereiro 2017.

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