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Yoga, Amor e desalienação

por Tales Nunes

Nós carregamos a pressa de uma ideologia presa no corpo e na mente, sem sequer estarmos conscientes disso. A sociedade em que vivemos hoje, de consumo, está baseada na pressa e na produção. Não importa o preço humano e ecológico que se pague, o importante é gerar lucro para uma minoria, em cima da alienação da maioria.

Esse sistema tem os seus meios de controle externos, o estado e as suas forças de manutenção e de vigilância. Um sistema político falido que controla a polícia para que dome a maioria de acordo com o interesse de uma minoria abastada. Esse é um sistema que aprisiona vidas a um modelo, a trabalhos desgastantes, a padrões de “diversão”, a cidades que se tornam cada vez mais insustentáveis.

Mas os mecanismos de controles externos não são os mais perigosos. A polícia, por exemplo, pode ser enfrentada, quando o interesse da coletividade é ameaçado diante do controle. Quando, porém, esses mecanismos de controle são introjetados, através da alienação e da ideologia, parecem invisíveis. Mas seus efeitos não deixam de nos produzir angústias. Sentimos no corpo e na mente, sem sequer sabermos de onde eles vem.

A mente está sempre com pressa de chegar em algum lugar, mesmo que não se saiba exatamente onde se quer chegar. Uma ansiedade de conquista parece ser o pano de fundo da mente. O outro, dentro individualismo exacerbado que a ideologia de consumo insiste em naturalizar, torna-se uma ameaça a própria sobrevivência. O sucesso é visto como o objetivo único da vida e está sempre associado à competição e à conquista. Esse é o pano de fundo para o julgamento de quem conseguiu e quem não conseguiu.

Ideais são construídos em todas as áreas da vida. Da maternidade ao trabalho, do carro ao corpo, da casa ao amor. Seja isso, seja aquilo, seja, seja, seja. Seja comprando, seja consumindo, seja forte com este carro, seja feliz com essa casa, seja melhor. Melhor do que quem, melhor do que o quê?

O corpo sente as dores da pressão constante dessa exigência de sempre mais. As doenças predominantes são invisíveis, são mentais, seja de paralisia por achar que não conseguiu ou de ansiedade de seguir constantemente tentando e competindo sem saber ao certo a razão da competição. E a solução proposta pela medicina vigente não é ativa tampouco reflexiva, mas extremamente alienante por meio de remédios de adormecimento, de soluções imediatistas e paliativas.

A exacerbação da individualidade camufla o controle nos dando a ideia de uma falsa autonomia. Estou sendo eu mesmo, com a roupa que a indústria da moda dita que eu compre? Estou sendo eu mesmo, com o carro que me deixa mais másculo e potente? O ser diferente se torna uma exigência que nos faz iguais e reprodutores, sem sequer termos consciência.

À medida que as cidades vão crescendo, nesse ritmo e dentro dessa ideologia, há a tendência das pessoas irem se afastando e as relações ficando mais agressivas e impessoais. O tempo de desfrute  e de contemplação, se torna tempo no trânsito, tempo de irritação e de disputa. O aumento das diferenças sociais na cidade começa a criar espaços de disputa e de defesa. O outro, o diferente passa a ser visto como inimigo, como alguém que ameaça o meu bem estar.

A natureza se torna algo distante. Não conseguimos acompanhar, oferecer escuta aos movimentos da natureza ao nosso redor. Até mesmo quando vamos para um ambiente quieto, junto à natureza, levamos os nossos ruídos.  Estabelecer uma relação de proximidade com a natureza pede tempo, observação e silêncio interno. Uma abertura em escuta para ouvir o que a natureza constantemente nos ensina e nos sopra de sabedoria e de entendimento. O respeito pela vida, em todas as suas formas, é abalado por nossa alienação em relação ao papel de cada ser, de cada indivíduo, de cada força dentro da tecitura do Todo.

Não se percebe, mas o inimigo verdadeiro foi introjetado: a alienação. A ideologia se apropria das pessoas à favor da reprodução de um sistema. E não importa o quanto a vida se torne explosiva, esse inimigo parece continuar desconhecido. Então, dentro da ilusão de “isolamento”, quando me revolto ou acredito estar pensando criticamente, eu ataco de forma generalizada o mundo. Como se esse mundo e as ideias nele produzidas fossem algo eterno e sempre dados e a única maneira de se viver. E, pior, como se eu estivesse fora dele.

O mundo em que vivemos é construído. Essa ideologia que hoje é hegemônica, não foi um dia. Essa ideologia que introjetamos desde pequenos produz tal efeito sobre a natureza e sobre a coletividade porque nós também participamos. Nós seguimos construindo nossos estilos de vida sobre tais preceitos, de competição, de consumo e de exclusão. Ela está em nosso olhar, como sombras escondidas.

Assim como houve uma educação para criar esses “desvalores” como valores, é um processo de educação do olhar, baseado na desconstrução, que abre espaço para o resgate dos valores humanos reais. E esse é um caminho que se dá artisticamente. Apenas a arte é realmente revolucionária. Apenas o salto artístico e criativo é verdadeiramente resistência. Porque o poder tenta se apropriar constantemente dos contra-discursos. E é o olhar artístico, criativo, tem a coragem e a inventividade constante de resistir à apropriação.

É uma expressão que podemos observar florescer nos movimentos de resistência. Quando pessoas se juntam nas cidades para criar hortas coletivas. Quando se reúnem para criar espaços de trocas e de reaproveitamento de produtos. Quando formam grupos para fazer compras coletivas de pequenos produtores. Quando grupos de pais decidem coletivamente educar seus filhos de uma maneira diferente, porque não estão contentes com o que a maioria das escolas se tornaram, mais um espaço de reprodução e de mercado, em vez de ser um ambiente de criação e de reflexão. Essas soluções artísticas são oposição.

Nesse contexto, o Yoga chega como uma possibilidade de resistência. Em dois sentidos, corporal e de conhecimento. As técnicas do Hatha Yoga tem o objetivo de nos reaproximar do nosso corpo. Elas tem, se bem aliadas ao conhecimento do Yoga, a possibilidade de ajudar a nos desalienar do nosso corpo. A reconhecer os efeitos que as nossa ações geram em nossos corpos. O efeito de um estilo de vida em nosso corpo. Especialmente de um estilo de vida distanciado da natureza e dos seus movimentos. Como esse estilo de vida pode desregular o nosso sono, a nossa alimentação e as nossa relações afetivas. Nesse sentido o Hatha Yoga nos coloca como responsáveis pelo bem estar do nosso corpo a partir de ações yogikas específicas, de respiração, de limpeza e de ásanas (posturas). Essas ações têm o objetivo de nos reconectar com os movimentos da natureza e de nos perceber como extensão deles.

Nesse contato sincero com o próprio corpo não dá para continuar se enganando. Não dá para continuar acreditando que podemos nos alimentar com comidas industrializadas e ter uma vida com vitalidade. Não dá para continuar acreditando que podemos dormir pouco e cercado de ruídos internos e externos e não sentir ansiedade. Não dá para continuar acreditando que a pressão, a pressa e um trabalho sem sentido não afetarão o coração, os pulmões, o cérebro. Não dá para continuar acreditando que o concreto,o cinza, a paisagem monocromática e a violência urbana não afetarão a forma como eu enxergo a vida.

O Hatha Yoga, pouco a pouco, vai ligando, unido os pontos. Para que voltemos a enxergar a tessitura do Todo. Isso se dá a partir da prática, das formas de intervenção no corpo e do próprio conhecimento do Yoga que está embasado na visão de unidade e entrelaçamento da Vida. É um conhecimento que vai abrindo a nossa sensibilidade e o nosso olhar para outras possibilidades de viver. Assim como as práticas nos desalienam do nosso corpo revelando-o como espaço de coletividade, de natureza e de criação, o conhecimento do Yoga tem a possibilidade de nos acordar de uma ideologia predominante de separação e de competição. De nos mostrar que a ansiedade de chegar em algum lugar, não nos fará necessariamente chegar onde mais gostaríamos de estar. O lugar que realmente estamos buscando é um lugar de conforto que a própria pressa, competição e noção de separação escondem. É um lugar de conforto que o Yoga nos faz reconhecer em nós mesmos, e que cria um espaço para pensarmos no outro, nos valores fundamentais da vida e no que realmente estamos buscando realizar.

Esse não é uma espaço de individualidade egóica que cria mais separação. Mas um espaço amplamente íntimo e incrivelmente compartilhado. Pois é nesse espaço que o Yoga abre que nos reconhecemos como o Todo e o todo como nós mesmos. Para isso, não é preciso consumo, disputa, exclusão. O outro deixa de ser uma ameaça, o outro não é mais alguém com quem se deve disputar, mas se torna uma possibilidade de criar junto, uma ampliação. O outro inclui a natureza em sua incrível multiplicidade, uma planta, um animal, uma pedra, o Sol, a Lua, o Mar e todos os seres humanos. Todos eles são vistos como não separados. O si mesmo é visto como um pouco de cada um desses seres.

Então, a partir de um novo olhar, novos atos podem nascer. Atos de resistência, atos criativos, atos contemplativos, atos amorosos. Não podemos mais esperar que a mudança aconteça na política de estado, a tendência é que ela reproduza o poder. A política que queremos deve ser posta em prática em pequenos atos. Simples, mas que fazem toda a diferença. Da forma como nos vestimos, à forma como nos alimentamos. Da forma como amamos e criamos nossos filhos, à forma como nos dirigimos e tratamos as pessoas na rua.

O grande poeta Rumi nos deixou uma frase contundente: “A maneira como você faz amor é a maneira Deus estará com você”. Ele de certa maneira quis dizer, a forma como você se relaciona com o mundo é a forma como o mundo será em você. Você está construindo a sua realidade e afetando a vida em cada ato cotidiano. Coloque o amor, na forma de compreensão e acolhimento da diferença do outro em suas relações cotidianas e então tudo se tornará sagrado para você. Apenas a nossa crítica não cria um mundo melhor, a nossa visão ampliada, a nossa desalienação posta em prática é que criam as mudanças que desejamos no mundo. É preciso lutar, sim, mas com uma disposição amorosa. Num propósito que tenha céu e seja chão para uma vida mais harmônica para todos.

Viver a partir do Coração é uma arte que começa na pele.

Tales Nunes, Floripa 19 de out de 2016.

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